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Novo Museu do Cairo: minha experiência no Grande Museu Egípcio

Conheci o Novo Museu do Cairo logo após a inauguração. Veja o que encontrei por lá!

Por Carlos Caprice | Caprice Turismo

Novo Museu do Cairo

Já visitei o Egito inúmeras vezes e, mesmo depois de tantos anos percorrendo seus templos, pirâmides e sítios arqueológicos, esse país continua me surpreendendo.

No dia 5 de novembro de 2025, tive a oportunidade de viver uma experiência muito especial: conhecer o Grande Museu Egípcio (Grand Egyptian Museum – GEM), em Gizé, apenas quatro dias depois de sua inauguração oficial.

Durante anos, acompanhei as notícias sobre a construção desse museu. Foram muitos adiamentos, mudanças e uma espera que parecia não terminar. Por isso, quando finalmente entrei naquele edifício monumental, confesso que fiquei impressionado.

E olha que não é fácil me impressionar depois de tantas viagens ao Egito!

Mas o que encontrei ali foi muito mais do que um museu moderno. Foi uma verdadeira obra faraônica, construída para preservar e apresentar ao mundo uma das civilizações mais fascinantes da humanidade.

A primeira impressão: Ramsés II recebe os visitantes

Antes mesmo de conhecer as coleções arqueológicas, a arquitetura do museu já chama a atenção.

A entrada monumental, os ambientes amplos, os tetos altíssimos e a iluminação foram pensados para criar uma experiência completamente diferente daquela que tínhamos no antigo Museu Egípcio da Praça Tahrir, no Cairo.

Logo na entrada, somos recebidos por uma estátua colossal de Ramsés II, um dos faraós mais conhecidos da história do Egito.

A estátua foi encontrada em Mênfis, uma das antigas capitais egípcias, e hoje ocupa um lugar de destaque no museu.

Ramsés II governou por aproximadamente 66 anos e deixou uma quantidade extraordinária de monumentos espalhados pelo Egito. Não é por acaso que ficou conhecido como Ramsés, o Grande.

Mas existe uma curiosidade que aprendi melhor quando voltei ao museu acompanhado do meu amigo Mustafa, um experiente egiptólogo.

Observando a estátua, ele me mostrou que o nome de Ramsés aparece gravado em diversos lugares: nos ombros, no peito, nas pulseiras e até em elementos de sua vestimenta.

Por quê?

Porque, no Egito antigo, não era incomum que um faraó apagasse o nome de um antecessor de determinado monumento e colocasse o seu no lugar.

Ramsés II conhecia muito bem essa prática e procurou dificultá-la, espalhando suas inscrições por toda a escultura.

É impressionante como um detalhe aparentemente pequeno pode revelar tanto sobre a política e a personalidade de um faraó.

O tesouro de Tutancâmon: uma das maiores atrações do museu

Uma das experiências mais marcantes da minha visita foi entrar na área dedicada a Tutancâmon.

Sua tumba foi descoberta por Howard Carter em 1922, no Vale dos Reis, e se tornou uma das descobertas arqueológicas mais famosas do mundo.

O novo museu reúne uma coleção extraordinária de objetos encontrados naquele túmulo.

Estamos falando de camas, joias, sandálias, armas, carruagens, objetos religiosos, móveis e inúmeros pertences que acompanharam o jovem faraó em seu sepultamento.

Algumas peças eu já conhecia do antigo museu. Outras foram uma verdadeira novidade para mim.

Uma das coisas que mais chamam a atenção é a quantidade de ouro utilizada nos objetos funerários.

Há peças revestidas de ouro, joias delicadíssimas e grandes estruturas funerárias que se encaixavam umas dentro das outras, protegendo o sarcófago do faraó.

Imagine o trabalho necessário para produzir tudo aquilo há mais de três mil anos!

E existe uma reflexão que sempre faço quando vejo o tesouro de Tutancâmon.

Ele não foi um dos faraós mais poderosos da história egípcia. Seu reinado foi relativamente curto.

Se encontraram tamanha riqueza em sua tumba, imagine o que poderia ter existido nos sepultamentos de faraós como Ramsés II e Tutmés III, cujas tumbas foram saqueadas na Antiguidade.

É algo que sempre me faz pensar.

A famosa máscara funerária de Tutancâmon

Outro momento especial foi reencontrar a famosa máscara funerária de Tutancâmon.

No antigo museu, existiam restrições bastante rigorosas para fotografar e filmar determinadas peças. Durante minha visita inaugural ao novo museu, pude registrar a máscara, algo que me surpreendeu.

E, naturalmente, ela era uma das atrações mais concorridas.

A cena me lembrou o Museu do Louvre, em Paris, onde dezenas de visitantes se concentram diante da Mona Lisa.

Aqui acontece algo parecido.

Todos querem ver de perto e fotografar uma das imagens mais conhecidas do Egito antigo.

Mas a máscara não é apenas uma peça de ouro extraordinária.

Seus elementos possuem significados religiosos e políticos. A barba cerimonial, o toucado real e os símbolos de proteção estão relacionados à concepção egípcia da realeza e da vida após a morte.

É justamente por isso que considero tão importante conhecer o museu acompanhado de um bom egiptólogo.

Uma coisa é admirar a beleza da máscara. Outra, completamente diferente, é compreender o que cada elemento representa.

Voltei ao museu com um egiptólogo e descobri detalhes que nunca havia percebido

Minha primeira visita teve o objetivo de conhecer a estrutura do novo museu, suas exposições e a maneira como o acervo havia sido organizado.

Mas saí de lá com uma certeza: precisava voltar com mais tempo.

Foi o que fiz.

Em uma segunda oportunidade, retornei acompanhado do meu amigo Mustafa, um egiptólogo que conheço há muitos anos.

E essa segunda visita foi completamente diferente.

Em vez de simplesmente observar as peças, começamos a analisar seus detalhes, inscrições, símbolos e histórias.

Mustafa me mostrou coisas que, mesmo depois de tantos anos visitando o Egito, eu nunca havia reparado.

Uma delas estava justamente nas estátuas dos faraós.

Por que algumas estátuas egípcias têm uma cauda de touro?

Essa foi uma das curiosidades que mais me surpreenderam.

Observando determinadas esculturas reais, Mustafa chamou minha atenção para um detalhe na parte posterior da vestimenta dos faraós: uma cauda de touro.

Confesso que já havia visto aquelas estátuas diversas vezes, mas nunca tinha prestado atenção nesse elemento.

O touro simbolizava força e poder.

Ao incorporar sua cauda à representação real, o faraó procurava associar sua figura à força daquele animal.

O mesmo princípio aparece em outros símbolos da realeza, como a cobra e o abutre presentes nas coroas e nos adornos reais.

Nada estava ali simplesmente para decorar.

Cada elemento transmitia uma mensagem sobre a autoridade, a proteção divina e o poder do faraó.

Essa é uma das coisas mais interessantes da arte egípcia: quando começamos a compreender seus símbolos, as estátuas deixam de ser apenas esculturas antigas e passam a contar histórias.

Por que tantas estátuas egípcias estão sem nariz?

Essa é uma pergunta que muita gente faz, especialmente quando conhece a Grande Esfinge de Gizé.

Durante nossa visita, Mustafa explicou uma interpretação histórica bastante interessante.

Para os antigos egípcios, determinadas estátuas não eram simples representações artísticas. Elas podiam desempenhar funções religiosas e servir como receptáculos simbólicos da presença espiritual de uma pessoa ou divindade.

Existiam cerimônias destinadas a conferir simbolicamente à imagem a capacidade de respirar, enxergar, falar e receber oferendas.

Por isso, em determinados contextos, danificar o nariz, os olhos ou as mãos de uma escultura poderia representar uma tentativa de neutralizar seu poder.

Mustafa comentou que algumas dessas mutilações podem estar relacionadas a transformações religiosas ocorridas ao longo dos séculos.

É importante lembrar, porém, que nem todas as esculturas perderam o nariz pelo mesmo motivo. Existem danos acidentais, destruições intencionais e diferentes circunstâncias históricas.

Mas conhecer o significado religioso dessas imagens nos ajuda a compreender por que certas partes eram especialmente atingidas.

Depois daquela explicação, passei a olhar para muitas esculturas egípcias de outra maneira.

As pirâmides foram construídas por extraterrestres? O museu ajuda a responder

Quem acompanha meus vídeos sabe que gosto de discutir algumas teorias bastante populares sobre o Egito antigo.

Uma delas é a ideia de que as pirâmides teriam sido construídas por extraterrestres.

Pois bem, o Grande Museu Egípcio apresenta uma explicação muito mais interessante: a evolução da própria engenharia egípcia.

Em uma das exposições, podemos acompanhar o desenvolvimento das construções funerárias, começando pelas mastabas, passando pela pirâmide escalonada de Djoser, em Saqqara, até chegar às grandes pirâmides.

A pirâmide de Djoser, associada ao arquiteto Imhotep, representa uma etapa fundamental desse processo.

Depois vieram novas experiências arquitetônicas, incluindo a famosa Pirâmide Romboidal, cuja inclinação muda durante a construção.

Até que os egípcios desenvolveram as técnicas necessárias para construir monumentos como a Grande Pirâmide de Quéops.

Ou seja, temos um processo histórico de aprendizado, aperfeiçoamento, erros e acertos.

Além disso, existem registros arqueológicos, vestígios das comunidades de trabalhadores e documentos que ajudam a compreender a organização dessas obras.

Não precisamos recorrer a extraterrestres para explicar a capacidade dos antigos egípcios.

Aliás, reconhecer que aquelas construções foram realizadas por seres humanos torna tudo ainda mais extraordinário.

O significado religioso da forma das pirâmides

Na segunda visita, Mustafa acrescentou uma explicação que considero fascinante.

Na cosmologia egípcia, existia a ideia de que, no princípio, o mundo estava coberto pelas águas primordiais.

A primeira porção de terra teria emergido dessas águas, formando uma elevação sagrada associada à criação.

Essa concepção ajuda a compreender a importância religiosa da forma piramidal.

A pedra benben, relacionada à tradição religiosa de Heliópolis, também está associada a esse simbolismo.

Portanto, as pirâmides não eram apenas demonstrações de capacidade técnica.

Elas estavam profundamente ligadas às crenças egípcias sobre a criação, o Sol, a morte e a continuidade da vida.

É essa combinação de engenharia, religião e história que torna o Egito tão fascinante.

Hatshepsut, Akhenaton e os bastidores do poder no Egito antigo

Outra parte muito interessante da visita com Mustafa foi conhecer melhor algumas disputas políticas e religiosas que marcaram a história dos faraós.

Hatshepsut, por exemplo, foi uma das mulheres mais importantes a governar o Egito.

Em muitas representações, ela aparece utilizando símbolos tradicionalmente associados aos faraós homens, incluindo a barba cerimonial.

Em determinadas peças, também encontramos inscrições e imagens que foram danificadas ou modificadas ao longo da história.

Essas alterações ajudam os arqueólogos a investigar conflitos de poder, mudanças dinásticas e transformações religiosas.

Já Akhenaton protagonizou uma das grandes mudanças religiosas do Egito antigo, promovendo o culto a Aton.

E essa transformação também atingiu a arte.

Antes de seu reinado, predominavam representações bastante padronizadas dos faraós. Com Akhenaton, surgiram esculturas e relevos com características muito diferentes, incluindo rostos alongados e proporções corporais incomuns.

Mustafa me chamou a atenção para um detalhe importante: nas primeiras representações de Akhenaton, anteriores às suas grandes reformas religiosas, ele aparecia seguindo padrões artísticos mais tradicionais.

Isso ajuda a compreender que as mudanças em sua aparência nas esculturas podem estar ligadas a uma nova linguagem artística e religiosa, e não necessariamente a alguma condição física.

São detalhes que fazem toda a diferença quando queremos compreender a história de maneira séria.

Um museu moderno, mas que merece ser visitado sem pressa

Além do extraordinário acervo arqueológico, o Grande Museu Egípcio impressiona pela estrutura.

Diferentemente do antigo museu, encontramos ambientes climatizados, escadas rolantes, espaços de alimentação, cafeterias, lojas e uma organização muito mais ampla das exposições.

Uma das áreas mais bonitas é a Grande Escadaria, que reúne dezenas de monumentos e esculturas.

Conforme subimos, encontramos peças de diferentes períodos da história egípcia.

E, ao chegar à parte superior, somos surpreendidos pela vista em direção às pirâmides de Gizé.

É um projeto arquitetônico muito bem pensado.

Naturalmente, nem tudo é perfeito.

Na minha primeira visita, percebi que algumas placas de identificação das esculturas eram pequenas demais, dificultando a leitura, especialmente nos ambientes com iluminação reduzida.

Mas isso não diminuiu minha admiração pelo conjunto.

O museu é gigantesco e possui tanta coisa para ver que uma visita rápida simplesmente não faz justiça ao seu acervo.

Minha recomendação é reservar várias horas e, principalmente, contar com o acompanhamento de um profissional que conheça profundamente a história egípcia.

Afinal, não basta olhar para uma estátua de três mil anos. O mais interessante é descobrir por que ela foi construída, quem ela representa e qual era seu significado.

O Grande Museu Egípcio é uma nova razão para conhecer o Egito

Depois dessas duas visitas, fiquei ainda mais convencido de que o Grande Museu Egípcio representa um marco para o turismo cultural no país.

O Egito já possuía atrações extraordinárias: as pirâmides de Gizé, os templos de Luxor e Karnak, o Vale dos Reis, Abu Simbel e tantos outros lugares que preservam milhares de anos de história.

Agora, ganhou também um espaço monumental dedicado à conservação e à apresentação desse patrimônio.

E, para quem gosta de história, isso muda bastante a experiência de visitar o país.

Uma peça observada no museu pode ajudar a compreender melhor um templo visitado no dia seguinte. Uma inscrição explicada por um egiptólogo pode revelar o significado de símbolos que encontramos em diferentes monumentos.

É por isso que sempre digo que uma viagem ao Egito precisa ir além das fotografias.

É preciso conhecer as histórias que existem por trás de cada lugar.

E o novo museu oferece uma oportunidade extraordinária para isso.

Saí da minha primeira visita impressionado com a arquitetura e com a dimensão do acervo. Na segunda, acompanhado de Mustafa, saí com ainda mais conhecimento e novas perguntas.

Porque é assim que acontece no Egito: quanto mais estudamos sua história, mais percebemos o quanto ainda temos para descobrir.

Para mim, o Grande Museu Egípcio é a mais recente obra faraônica do Egito.

Não é um templo religioso como aqueles construídos pelos antigos faraós, mas um verdadeiro templo dedicado à memória de sua civilização.

E merece ser conhecido.

Carlos Caprice

Diretor da Caprice Turismo


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